segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Só isso


Outro dia fui na loja Aliança de Ouro. É uma loja aqui da minha cidade. Pra quem não conhece, essa loja é uma daquelas que a gente entra e tem a impressão de ter parado no tempo. Não, ela não é um antiquário. Não podemos confundir coisas antigas com coisas cafonas e inúteis. Nessa loja, uma coisa em cada dez é de alguma utilidade.
Pois bem, precisava comprar 1 metro de fita de cetim e entrei nessa loja pelo desespero do comodismo.
Meu marido, com o nosso bebê nos braços e eu segurando a mão de minha filha de 4 anos, fomos até o balcão e pedi 1 metro de fita de cetim. A vendedora simpática me parecia um exemplo de atendente até ela pronunciar a seguinte frase:
-Só isso?
Poxa...isso é coisa que um vendedor pergunte? Essa pergunta dá uma desvalorização à sua compra. É humilhante para um comprador ouvir um vendedor perguntar: Só isso?
Será que ninguém pára pra pensar e substituir essa pergunta humilhante por uma frase decente como: Algo mais, senhor(a)? 
Fica muito melhor, né?
E eu já com o sangue começando a borbulhar de raiva, respondi educadamente por entre os dentes:
É. Só isso.
E a vendedora achou pouco e ainda soltou mais uma:
-Tem certeza?
Não foi um  'tem certeza'  rápido e imperceptível. Foi um 'tem certeza' longo, alto e convidativo à resposta: VTNC!!!!
Nesse instante, meu marido ao ouvir a pergunta absurda da balconista, virou de costas e saiu de perto.
E eu já fervendo de raiva, ouvi um grito dentro de mim que dizia:
PQP!!! É claro que eu tenho certeza!!!!
Só isso?!?!?!
É pouco o que eu estou comprando?! Eu vim aqui comprar o que eu preciso, não o que você gostaria que eu levasse!
Mas foi só um grito mental. Não respondi a pergunta da acéfala e saí pensando: seu Lunga é o cara!  E me lembrando do espantalho de " O Mágico de Oz ". Saí, com vontade de me açoitar pela dúvida se foi certo o meu excesso de educação ao ignorar a ignorância da vendedora simpática. Se devia ter, de maneira doce e educada, dizer algumas palavras pra ver se a ficha cairia, ou se devia ter dado totalmente voz ao que se passou em minha podre mente.




domingo, 13 de novembro de 2011

Magreza involuntária


E eu cresci, e parecia que tinha sido tão rápido que não tinha dado tempo de criar carne ao redor dos ossos. Era branca como aipim descascado. Com a arcada dentária avantajada. Hoje poderia fazer a comparação com arcada dentária do burro do filme Shrek. Tão magra que lembro-me da professora de ciências me usando na sala de aula para fazer demonstração de como era uma pessoa debilitada.

Poxa, será que eu perdi de ganhar uma graninha como modelo de calamidade humana? Consigo até imaginar as cenas: eu, ao lado de mestres, usada como modelo em palestras sobre o nazismo, por exemplo. Imagino eles me guiando por entre os alunos dizendo: Olhem! Vejam como ficavam os sobreviventes! Toquem , sintam seus ossos, vejam o profundo estado de debilidade em que ficavam os sobreviventes do holocausto! 

Uma vez ao voltar da escola, ouvi um garoto que conhecia de vista lá do bairro, comentar com seu amigo que já havia visto garota magra, apontando pra mim e dizendo espantado: Mas como aquela ali eu nunca vi!!!
Nossa! Ouvir aquilo me fez sentir a pior e mais feia pessoa do mundo. E olha que no bairro eu já tinha visto as criaturas mais horripilantes que se possa imaginar. Mas eu, naquele momento, estava me sentido pior que todas elas juntas. Tinha acabado de vir da escola onde todos ou, quase todos, recreavam chamando-me de chapa de burro e agora mais essa?
Ao chegar em casa, corri com a bolsa ainda nas costas direto para a cozinha. Comi tudo o que tinha . Não bastasse, o armário também foi saqueado pela minha fome inventada. A cada mordida, as palavras do infeliz vinham à minha cabeça:  Eu já vi garotas magras mas como aquela ali eu nunca vi! Nunca vi! Nunca vi! Nunca vi...
Corri para o espelho,na esperança da figura minha ali, esquelética, me encorajasse a socar mais comida goela abaixo. E assim foi até eu não aguentar mais. Fiquei apenas a esperar, com a silhueta de um pé de macaíba, a hora do jantar. Passei uma semana com a voz do desgraçado rodopiando na minha mente. Mas,como a vida me foi sempre generosa, logo se passava comigo outro fato, para desviar-me a atenção do último acontecido. Como alguém que leva uma martelada no dedo e logo depois uma boa topada o faz esquecer o dedo martelado.



Nossos problemas só parecem grandes porque temos o costume egoísta de só enxergarmos a nós mesmos.  -Contadora dos causos-


Auto-Retrato

“Foi identificado o buraco na camada de ozônio.”/ Tancredo Neves é eleito,de forma indireta,presidente do Brasil.Porém,morre antes de assumir o cargo.Assume o vice-presidente José Sarney.Fim da ditadura militar.”/ “O grupo musical Menudo faz turnê no Brasil.”
Eram essas algumas das manchetes dos jornais. Mas não deu manchete um dos acontecimentos mais lindos,mais marcantes,senão o mais importante e sublime:o nascimento de uma criança.Bem, era pra ser assim.Mas nascem milhares de crianças todos os dias há milhões de anos.Então,em vista desse pequeno detalhe,anonimamente,no dia 31 de agosto de 1985,numa cidadezinha pernambucana bonitinha chamada Carpina,aos gritos,chegou ao mundo mais uma  menininha branquela. Nesse mundo troncho porém  mais bonito que injusto.Ou se não me engano é o contrário... Enfim,chegara eu,que em meio ao balançar de braços,olhos e pernas sem coordenação,em pouco iria descobrir  como um anjo ingênuo,o tipo de mundo em que acharam de me despachar.
Pois quando ainda nem sabia que era gente,me levaram de vez para uma cidadezinha pernambucana bonitinha chamada Vitória de Santo Antão.Que estava há cerca de 9 anos de luto pela morte do ilustre escritor Osman Lins.
Minha mãe era loira de farmácia e provavelmente estava escutando bastante “Like a Virgin” de  Madonna.Porque nessa época,estava no topo das paradas. E tinha uma postura e um visual punk,apesar de não saber o que era isso.Já a minha avó -a figura mais marcante dos fantásticos fatos verídicos que irei narrar- tinha cara de avó mesmo.E meu pai...Bom,vamos fingir que eu nasci pelo processo de bipartição.E esqueçam que esse tipo de nascimento faz do novo indivíduo exatamente igual ao organismo que o gerou.Assim vamos poder aceitar que eu não seja tão parecida assim com minha mãe.
Então,prosseguindo,eram  na verdade minha avó,minha mãe,meu avô postiço e eu.Numa nova cidade começando uma nova vida.E o que não deu certo ficara para trás.
 É infelizmente inevitável que o nascimento de crianças,inclusive eu,não dê manchetes.Por isso,para preencher esse vazio e massagear o meu ego,resolvi publicá-la através deste blog,porque isso felizmente eu posso.
As seguintes histórias não são estórias.São fatos verídicos comicamente narrados.Divirtam-se reflexivamente :)