
E eu cresci, e parecia que tinha sido tão rápido que não tinha dado tempo de criar carne ao redor dos ossos. Era branca como aipim descascado. Com a arcada dentária avantajada. Hoje poderia fazer a comparação com arcada dentária do burro do filme Shrek. Tão magra que lembro-me da professora de ciências me usando na sala de aula para fazer demonstração de como era uma pessoa debilitada.
Poxa, será que eu perdi de ganhar uma graninha como modelo de calamidade humana? Consigo até imaginar as cenas: eu, ao lado de mestres, usada como modelo em palestras sobre o nazismo, por exemplo. Imagino eles me guiando por entre os alunos dizendo: Olhem! Vejam como ficavam os sobreviventes! Toquem , sintam seus ossos, vejam o profundo estado de debilidade em que ficavam os sobreviventes do holocausto!
Uma vez ao voltar da escola, ouvi um garoto que conhecia de vista lá do bairro, comentar com seu amigo que já havia visto garota magra, apontando pra mim e dizendo espantado: Mas como aquela ali eu nunca vi!!!
Nossa! Ouvir aquilo me fez sentir a pior e mais feia pessoa do mundo. E olha que no bairro eu já tinha visto as criaturas mais horripilantes que se possa imaginar. Mas eu, naquele momento, estava me sentido pior que todas elas juntas. Tinha acabado de vir da escola onde todos ou, quase todos, recreavam chamando-me de chapa de burro e agora mais essa?
Ao chegar em casa, corri com a bolsa ainda nas costas direto para a cozinha. Comi tudo o que tinha . Não bastasse, o armário também foi saqueado pela minha fome inventada. A cada mordida, as palavras do infeliz vinham à minha cabeça: Eu já vi garotas magras mas como aquela ali eu nunca vi! Nunca vi! Nunca vi! Nunca vi...
Corri para o espelho,na esperança da figura minha ali, esquelética, me encorajasse a socar mais comida goela abaixo. E assim foi até eu não aguentar mais. Fiquei apenas a esperar, com a silhueta de um pé de macaíba, a hora do jantar. Passei uma semana com a voz do desgraçado rodopiando na minha mente. Mas,como a vida me foi sempre generosa, logo se passava comigo outro fato, para desviar-me a atenção do último acontecido. Como alguém que leva uma martelada no dedo e logo depois uma boa topada o faz esquecer o dedo martelado.
Nossos problemas só parecem grandes porque temos o costume
egoísta de só enxergarmos a nós mesmos. -Contadora dos causos-
Ótima escritora!!! Pra quem esta começando agora até parece profissional da antigas. Gosto de ler as banalidades do dia a dia das pessoas. Às vezes é melhor presenciar a realidade do que a fantasia em que somos submetidos diariamente. Parabéns!!!
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