Qualquer semelhança...
domingo, 20 de novembro de 2011
domingo, 13 de novembro de 2011
Magreza involuntária

E eu cresci, e parecia que tinha sido tão rápido que não tinha dado tempo de criar carne ao redor dos ossos. Era branca como aipim descascado. Com a arcada dentária avantajada. Hoje poderia fazer a comparação com arcada dentária do burro do filme Shrek. Tão magra que lembro-me da professora de ciências me usando na sala de aula para fazer demonstração de como era uma pessoa debilitada.
Poxa, será que eu perdi de ganhar uma graninha como modelo de calamidade humana? Consigo até imaginar as cenas: eu, ao lado de mestres, usada como modelo em palestras sobre o nazismo, por exemplo. Imagino eles me guiando por entre os alunos dizendo: Olhem! Vejam como ficavam os sobreviventes! Toquem , sintam seus ossos, vejam o profundo estado de debilidade em que ficavam os sobreviventes do holocausto!
Uma vez ao voltar da escola, ouvi um garoto que conhecia de vista lá do bairro, comentar com seu amigo que já havia visto garota magra, apontando pra mim e dizendo espantado: Mas como aquela ali eu nunca vi!!!
Nossa! Ouvir aquilo me fez sentir a pior e mais feia pessoa do mundo. E olha que no bairro eu já tinha visto as criaturas mais horripilantes que se possa imaginar. Mas eu, naquele momento, estava me sentido pior que todas elas juntas. Tinha acabado de vir da escola onde todos ou, quase todos, recreavam chamando-me de chapa de burro e agora mais essa?
Ao chegar em casa, corri com a bolsa ainda nas costas direto para a cozinha. Comi tudo o que tinha . Não bastasse, o armário também foi saqueado pela minha fome inventada. A cada mordida, as palavras do infeliz vinham à minha cabeça: Eu já vi garotas magras mas como aquela ali eu nunca vi! Nunca vi! Nunca vi! Nunca vi...
Corri para o espelho,na esperança da figura minha ali, esquelética, me encorajasse a socar mais comida goela abaixo. E assim foi até eu não aguentar mais. Fiquei apenas a esperar, com a silhueta de um pé de macaíba, a hora do jantar. Passei uma semana com a voz do desgraçado rodopiando na minha mente. Mas,como a vida me foi sempre generosa, logo se passava comigo outro fato, para desviar-me a atenção do último acontecido. Como alguém que leva uma martelada no dedo e logo depois uma boa topada o faz esquecer o dedo martelado.
Nossos problemas só parecem grandes porque temos o costume
egoísta de só enxergarmos a nós mesmos. -Contadora dos causos-
Auto-Retrato
“Foi identificado o buraco na camada de ozônio.”/ Tancredo Neves é eleito,de forma indireta,presidente do Brasil.Porém,morre antes de assumir o cargo.Assume o vice-presidente José Sarney.Fim da ditadura militar.”/ “O grupo musical Menudo faz turnê no Brasil.”
Eram essas algumas das manchetes dos jornais. Mas não deu manchete um dos acontecimentos mais lindos,mais marcantes,senão o mais importante e sublime:o nascimento de uma criança.Bem, era pra ser assim.Mas nascem milhares de crianças todos os dias há milhões de anos.Então,em vista desse pequeno detalhe,anonimamente,no dia 31 de agosto de 1985,numa cidadezinha pernambucana bonitinha chamada Carpina,aos gritos,chegou ao mundo mais uma menininha branquela. Nesse mundo troncho porém mais bonito que injusto.Ou se não me engano é o contrário... Enfim,chegara eu,que em meio ao balançar de braços,olhos e pernas sem coordenação,em pouco iria descobrir como um anjo ingênuo,o tipo de mundo em que acharam de me despachar.
Pois quando ainda nem sabia que era gente,me levaram de vez para uma cidadezinha pernambucana bonitinha chamada Vitória de Santo Antão.Que estava há cerca de 9 anos de luto pela morte do ilustre escritor Osman Lins.
Minha mãe era loira de farmácia e provavelmente estava escutando bastante “Like a Virgin” de Madonna.Porque nessa época,estava no topo das paradas. E tinha uma postura e um visual punk,apesar de não saber o que era isso.Já a minha avó -a figura mais marcante dos fantásticos fatos verídicos que irei narrar- tinha cara de avó mesmo.E meu pai...Bom,vamos fingir que eu nasci pelo processo de bipartição.E esqueçam que esse tipo de nascimento faz do novo indivíduo exatamente igual ao organismo que o gerou.Assim vamos poder aceitar que eu não seja tão parecida assim com minha mãe.
Então,prosseguindo,eram na verdade minha avó,minha mãe,meu avô postiço e eu.Numa nova cidade começando uma nova vida.E o que não deu certo ficara para trás.
É infelizmente inevitável que o nascimento de crianças,inclusive eu,não dê manchetes.Por isso,para preencher esse vazio e massagear o meu ego,resolvi publicá-la através deste blog,porque isso felizmente eu posso.
As seguintes histórias não são estórias.São fatos verídicos comicamente narrados.Divirtam-se reflexivamente :)
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